Por questão de gosto, não assisto muitos lançamentos. Isso já vem de muito tempo. Algumas poucas exceções foram: A Bruxa (2015), Bruxa de Blair (2016) e O Ritual (2017). O que esses filmes têm em comum além de serem de terror? Todos nos levam a uma jornada até o desconhecido que espreita nos campos e florestas. Portanto, assim como na minha última contribuição para a Filmoteca (The Wicker Man, 1973), dirijo-me ao chamado Folk Horror.


ESSE TEXTO CONTÉM ALGUMAS INFORMAÇÕES QUE PODEM SER INTERPRETADAS COMO SPOILERS (apesar de eu ter evitado colocar as partes vitais da trama)
Folk Horror é um nome para esses filmes que nos carregam numa jornada até as florestas escuras, frias e perdidas e até as vilas habitadas por gente supersticiosa e praticante das “tradições ancestrais” e da bruxaria rural, coisas desconhecidas pelos olhos da modernidade. Nós que somos, em grande parte, moradores da cidade, nesses filmes somos levados ao desconhecido do mundo do campo, do mundo pagão que fantasiamos ainda existir, contrabalanceando nossa racionalidade urbana com um mundo obscuro, duro e habitado por criaturas sagradas ou profanas de antiguidade imensurável.

O Ritual conta a história de um grupo de amigos que, após a morte trágica de um companheiro de longa data, decide fazer uma longa caminhada pelos campos da Suécia. Lá, fazem uma pequena cerimônia em memória do amigo falecido e partem para uma experiência que deveria ser catártica. O grupo é formado de alguns elementos diferentes em questão de personalidade. Um deles é o rapaz que odeia qualquer tipo de atividade do gênero e preferiria estar a encher a cara em algum bar; temos um membro mais responsável; outro é atormentado por um sentimento terrível de culpa relacionado à morte do companheiro e ainda temos mais dois membros que dão um sentido de estabilidade para o grupo. Como é comum nos filmes de terror, a trama não fica legada apenas ao sobrenatural – talvez isso soasse chato aos olhos da audiência geral –, havendo sempre aquele fundo dramático pessoal para o qual a trama extraordinária serve como pano de fundo para a superação.
Andando por campos abertos, conversando e aproveitando a experiência, os amigos decidem pegar um atalho pela floresta escura e densa. É bem nessas florestas que habita o mistério que dará razão ao filme. Ali, o clima predominante toma carona no misticismo nórdico, na obscuridade dessas regiões, dos deuses antigos e daquelas paisagens frias e aparentemente sem vida. Como um dos personagens diz, aquele é um lugar onde o sol se põe praticamente por seis meses no ano e seria fácil "enlouquecer" no inverno. Todo esse contexto leva a pensar em bandas como Wardruna e Wolfsblood, que se focam no mundo ritualístico da espiritualidade nórdica.

Naquelas florestas escuras e vazias, os aventureiros começam a encontrar sinais misteriosos e eventos assustadores que vão além da manifestação física. Definitivamente, há algo desconhecido e extraordinário vagando entre as antigas árvores. Também encontram uma cabana vazia onde, como é comum nesses filmes, vários eventos ocorrem. Em meio a tudo isso, pode-se notar várias referências ao que nós conhecemos da tradição nórdica antiga. Por exemplo, eles se deparam com a runa Odal do Elder Futhark (alfabeto rúnico mais antigo, sobre qual pretendo escrever futuramente) numa árvore; essa runa é interpretada como significando propriedade, herança e família, é uma runa que trata da demarcação. Há referências ao blót, que é o ritual de sacrifício dos escandinavos e aos jötunn (na verdade, jötnar no plural), que são entidades sobrenaturais nórdicas. Ou seja, aqueles que gostam da mitologia nórdica gostarão desses detalhes no filme.
O clima do filme é de opressão pela natureza. O frio e a paisagem monótona da floresta oprimem o telespectador, valendo-se do uso de efeitos sonoros para aumentar o suspense das cenas. Quem já se perdeu em florestas distantes e esquecidas sabe como é desesperadora a sensação e como o nervosismo começa a aflorar. É algo assim que o filme faz imaginar.

Sei que há várias formas de se avaliar um filme. Em casos como o de O Ritual, prefiro ver o próprio mundo circundante como um personagem. Acabo não dando tanta atenção para o drama pessoal dos personagens ou suas relações entre si. O que me atrai em casos assim é a floresta, a escuridão, o frio e a desolação, coisas que, como apreciador de Black Metal, são muito atrativas a mim.
Vale a recomendação para aqueles que gostam de florestas, mitologia nórdica, estética invernal e terror. É possível dizer que o filme se cria num misto de O Homem de Palha e A Bruxa de Blair. Não é aquele filme genial e inovador que rompe barreiras e assusta toda uma geração, mas é um ótimo entretenimento!

FILMOTECA
Being There - 1979 | Fragmentado - 2016 | O Homem da Terra - 2007 Pantera Negra - 2018 | Rosemary's Baby - 1968 | The Wicker man - 1973
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